O Estado de incerteza e o “Estado” islâmico na Sociedade do Risco Global

Por José Vilema.

No ano de 2012,  no âmbito de uma Conferência Internacional, proferi e alertei sobre o novo quadro que se avizinhava e que o amanhã, para todos nós, seria mais sombrio e temeroso. Falava precisamente da cegueira política no que diz respeito a segurança dos Estados modernos, pois, na verdade, para mim e muitos outros, estamos a presenciar o improvável do que se pensava com a Paz de Vestefália (1648), com o fim das duas Grandes Guerras (1918; 1945), com a Queda do Muro de Berlim (1989) e com a desagregação da URSS (1991).

A política internacional é antagónica à Sociedade do Risco e ao Estado de incerteza porque mantem-se blindada à lógica de estarmos protegidos de riscos, perigos ou devastações provenientes de “Estados inimigos”. O Direito Internacional, neste sentido, estagnou. Embora se registem diversos acordos entre os sujeitos de Direito Internacional, os Estados-nação, mas em nenhum desses configura a inclusão do Estado sombra, o “Estado” islâmico (E.I).

İD_bayrağı_ile_bir_militan

Definir o “Estado” islâmico a partir do modelo de Estado territorial, embora detenha os elementos que demarcam esta definição, é exíguo uma vez que vai além desta perspetiva jurídica. O E.I é um Estado transnacional. O sentido político-filosófico, neste contexto, tem, por sinal, maior cabimento pois não só estabelece a relação intersubjetiva entre os elementos que constituem o E.I, já que há, portanto, uma aceitação coletiva, isto é, a instituição e constituição mental de implantar o terror como fonte de manifestação da insatisfação de uma pretensão a “nós” alheia.

O Estado somos nós, os cidadãos. Por esse motivo, estamos diante de um Estado sombra, um Estado, como bem nos referiu Cornelius Castoriadis, assente numa “consciência coletiva” desligada do imaterialismo que conduz ao “imaginário social” e, é por este motivo, enquanto se bombardeiam bases pertencentes aos E.I, por um lado, embaixadas, cinemas, lojas, e centros comerciais em todo mundo explodem, por outro. Ora, esta visão vem reforçar a porosidade dos Estados modernos confiantes da segurança territorial e na soberania estatal. Portanto, é Estado de incerteza, é a Sociedade do Risco. Por quê?

1447493132_014732_1447525085_noticia_normal

O que se vive hoje (14/11) em França, nas cinzas de um ataque de terror, o que se viveu em todas outras partes do globo, têm algo em comum: eram inesperados!  A Sociedade do Risco pressupõe que vivemos num estado de incerteza permanente onde os riscos estão subjetivamente incorporados nas nossas ações diárias, sem darmos por eles, até que estes se manifestam e efetivem, dando origem a catástrofe.

Ninguém esperava por estes ataques, lembremos por exemplo: o 11 de Setembro (EUA), massacre em Garissa (Quénia), Charlie Hebdo (França), atentado em Boston (EUA), os ataques em Maiduguri, Yola (Nigéria), Kerawa (Camarões) e muitos outros, uma coisa emana verdade, esses ataques não foram perpetrados por um Estado soberano sobre outro Estado soberano. Os ataques não foram direcionados às maquinarias militares, nem aos campos dos exércitos dos Estados lesados, como sucedera em Pearl Harbor (1941), senão aos cidadãos civis. Com efeito, perde-se o sentido de falar sobre segurança dos Estados-nação, pois todos cidadãos afetados pelos ataques terroristas estavam convictos da sua segurança e proteção garantidas constitucionalmente pelos seus Estados.

A complexidade e os desafios para determinar e solucionar a crise global do terrorismo força a um multilateralismo global e uma cooperação entre Estados. Aqui desabrocha a necessidade compreender a globalidade dos perigos que é ambivalente, ou melhor, tem duas faces: por um lado, aparecem novas formas políticas para sociedade global e, por outro lado, as desigualdades regionais e nacionais dos afetados pelas catástrofes. Será, na realidade, tentador e, por conseguinte, os Estados modernos tenderão a fechar-se ao mundo e à livre circulação, contrapondo, assim, o cosmopolitismo, cuja consequência será insólita.

Vivemos e atuamos com conceitos decrépitos a fim de solucionarmos desafios globais e complexos. Combate-se um Estado sombra. Combatemo-nos a nós mesmos. Os discursos e as linguagens políticas deterioram-se face à realidade que se impõe. As garantias de um mundo seguro e próspero são, assim, deitadas por terra, pois as esperanças somente nos conduzem para o Estado de incerteza.

3 comentários sobre “O Estado de incerteza e o “Estado” islâmico na Sociedade do Risco Global

  1. Pedro Kinemuna disse:

    Estado sombra é o que impera em todos os estados ( insegurança, desconfiança, falsa expectativas, desvios de irario publico) e em cada um de nós, no conflito entre o bem e o mal, fazer ou não fazer! Como dizia S. Agostinho ” Numa cidade existem sempre duas cidades, do bem e do mal. Numa consciência também”. O estado de incerteza já habita em nós. Nem mesmo os tratados, os acordos, convenções, nos trará devolta a certeza e a segurança social.
    Tudo parte de nós, é preciso formar a consciência positiva, a noção do bem, do outro no Estado Sombra…

    Curtir

  2. edgar Kapapelo disse:

    Contando com a explosãodo do avião russo no Egito, e esse ataque em frança pais que acolhe muitos membros da comunidade ou povo árabe é natural a crescente incerteza face ao risco, O jogo destes grupos terroristas é quase perfeito, porque destabilizam a siria, obrigam os cidadãos a se refugiar na Europa e em outras partes do mundo, no meio desses refugiados, encontram-se membros destas selulas, a comunidade europeia, não se posiciona negativamente ao asilo a esses refugiados, conscientes dessa estratégia, so a possibilidade de se voltar a verificar uma situação como essa na Europa é assustadora, os Estados têm um obrigação com os cidadãos, mas tambm se sentem obrigados a acolher, em nome de princípios fundamentais que resultaram da segunda guerra mundial em que milhares de europeus se viram como refugiados, assim consagrou-se o estatuto do refugiado e do asilo. Momento de muita importância, deixar morrer, ou permitir essa incerteza pondo em causa outros direitos e princípios…

    Curtir

  3. Alberto disse:

    É verdade que estamos num período de crescente e permanente risco iminente. Entretanto, pouco faz-se para de facto travar esses grupos terroristas. A Al Qaeda vem aparentemente abrandando com os seus actos, até mesmo condenando a forma de actuação do grupo terrorista auto-proclamado Estado Islâmico, entretanto, outros grupos como o Estado Islâmico e outras forças terroristas que vem se multiplicando com uma e outras diferenças de actuação.
    Quer dizer, parece que o mundo está rendendo-se a esses grupos.
    A pergunta inquietante é de facto qual é razão e causa para que estes grupos terroristas tornem-se parte integrante da sistema internacional, se, é por uma questão meramente iminente sob o ponto de vista de Relações Internacionais, no que diz respeito a actores que conflituam entre sí, uma simples disputa pelo espaço e contrabalança do poder, ou trata-se de da ideolo-imperialização ocidental.

    Vemos uma assumida inoperância da ONU quanto a estas questões, são violações dos direitos civis e humanos, são sucessivas e frequente ingerência de soberania consequentemente golpes de estado, etc. E a ONU permanece inerte ou distante destes todos crimes contra a humanidade.
    Todavia, quando trata-se de invadir um país qualquer, qual alegam que esteja-se a cometer actos que violem os direitos dos cidadãos, esta mesma ONU insurge-se primeiro como o protector, defendendo a posição dos EUA primeiramente se não exclusivamente, isso é sabido. Tal é o caso da invasão ao Iraque pelos EUA com o veto no CS ONU, então, não pode-se aqui fazer-mo-nos de despercebidos sabe-se de antemão que as coligações comandadas pelos EUA são avalizadas pelo CS ONU indiscriminadamente.

    O mundo hoje vive uma crise económica degenerativa, estamos todos a mercê desta, volta-se a viver sob uma Guerra Fria, a procura por zonas de expansão ideológica, controlo de pólos de poder.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s