Crítica à Razão egocêntrica. Contrapontos de uma política de humanidade.

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Por. José Vilema

O espaço público que a todos pertence e que me coube chamar de Metastatus num dos meus últimos trabalhos, reacende o debate de uma política de humanidade que nunca, na verdade, se esgotou, mas tem sido, por muitos, ignorada pelo facto da Razão egocêntrica ser um elemento central dos Homens e Mulheres (HM) da sociedade moderna. A aceleração para um “provável” cataclismo global é matéria política e sobretudo de Humanidade. Enquanto caminhamos para um futuro de permanentes incertezas, lateralmente nos acompanham resultados nunca esperados que, por sua vez, são sintomas de uma era de mal-estar, mas que a Razão egocêntrica tende a sonegar e a legitimar a ignorância de que o Metastatus ainda poderá resistir às comoções que tem vindo a suportar.

Na primeira metade do século XX o filósofo alemão, Martin Heidegger, na sua obra Sein und Zeit (Ser e Tempo), propôs uma reflexão pertinente e acima de tudo inquietante ao colocar o HM como interveniente direto do mundo que o circunscreve. Heidegger alertara fundamentalmente à necessidade de se transcender da visão do mundo meramente linguístico para centrar-se no mundo vivencial, de uma pragmática existencial do ser humano (Dasein) preocupado com a sua história e com a sua permanência no “mundo da vida”.

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O próprio Heidegger reconhece que a problemática do ente humano, da Self-identity como sustenta Anthony Giddens, da permanente ideia de uma antropologia salvífica é segregadora, pois acarreta em si mesma uma tendência de atrair para si o que lhe apraza e despreocupar-se com o Outro enquanto ente da mesma natureza. Essa tipicidade da Razão egocêntrica não só fragmenta a sociedade vigente, mas legaliza uma espécie de instrumentalização do ser enquanto humano e transforma-o numa natureza de mercadoria que se movimenta de um lado para o outro (Bauman, 2007. Consuming Life, faz menção a isso) desvalorizando a sua semelhança. A Razão egocêntrica coloca o ser enquanto humano à escala de inimigo (Freund) a eliminar (lembremos, o que nos diz, Carl Schmitt. 1995. The concept of the political) ou de amigo (Feind) a acolher, o que paradoxalmente demonstra que em “perfeito juízo” pode o HM banalizar mal (H. Arendt) e suprimir o bem a seu bel-prazer.

Quando assistimos à decapitação de um ser humano por parte de um grupo extremista, por um lado, é razão para justificar que a “Humanidade” está em perigo e que os inimigos estão identificados. Por outro lado, quando são assistimos aos bombardeamentos de zonas onde, estatisticamente, habitam os “inimigos” ignorando as populações civis, quando assistimos à aplicação de medidas desumanas, como a austeridade forçada, levando a sociedade civil ao limiar da pobreza, à extinção dos seres mais sensíveis resultado do aquecimento global, à detenção de pessoas inocentes, sem culpa formada, à violação de crianças sem mecanismos legais que as defende, à mutilação feminina justificando razões culturais, à pobreza do vizinho (da porta ao lado) enquanto deitamos no lixo os excedentes das pândegas, como caso do natal em concreto, quando assistimos à degradação ecológica e cruzamos os braços pensando que os ursos polares não fazem parte do equilíbrio do ecossistema, não é a Humanidade que está em perigo?

A busca de uma “Humanidade integral” (relembrando Jacques Maritain, 1936) fundamentada na liberdade do HM preocupado com o presente e ignorando sistematicamente o futuro que constrói sobrepondo algumas das culturas, colocando-as numa posição hierárquica inferior, nutri o nascimento de movimentos extremistas dispostos a darem as suas vidas em prol de uma razão superior alheia àqueles que, assim, os subalternizam. Esse compromisso com o futuro deve alicerçar-se numa dialética cooperativa de integração e não de disjunção sociopolítica e sobretudo religioso-cultural.

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É certo que, se perguntarmos a um agricultor que vive no Sudão do Sul o que pensa sobre o aquecimento global, estou convicto que dirá que do céu já não cai chuva faz tempo. Já a mesma resposta não obterei se perguntarmos a um agricultor que vive no Uruguai, na Argentina, nas Filipinas, etc. O fundamental, com isso, é compreender que de um extremo ao outro NEM TUDO VAI BEM.

Com efeito, retomaria esta reflexão afirmando, mais uma vez, que a Razão egocêntrica nos deixa, de algum modo, desprotegidos ao pensarmos que o meio em que vivemos é mais importante que a “Casa Comum” (nas palavras do Papa Francisco, 2015. Laudato Si) que nos engloba enquanto um Metastatus. É bom lembrar que não é um debate novo, mas que tem sido afrontado de “ânimo leve”, pois para quem não sofre diretamente as consequências, entende como se de uma “simples” catástrofe nos referíssemos.

Se tivéssemos que comprar o ar que respiramos?

Uma política de Humanidade não é uma política de Estado, é uma política de um Metastatus. Ela transcende as capacidades de um Estado-nação e se ancora numa metapolítica, por não se preocupar unicamente com quem está sendo diretamente governado, mas com quem habita neste pluriverso (não universo) de que todos nós fazemos parte. Decerto, o agricultor do Sudão do Sul não está preocupado com o agricultor das Filipinas ou do Uruguai, mas ambos pertencem a este Metastatus no qual os Estados-nação, em que cada agricultor está inserido, fazem parte.

A terminologia usada por Edgar Morin e Sami Nair (1997) «Pour une politique de civilisation», antropolítica, permiti-nos justificar dois exemplos que passaremos, em seguida, a enunciar por razões óbvias. A distância que o HM impõe ao outro HM dá conta que a ideia de “Comum” perdeu o seu diâmetro e passou a ser interiorizada como “Comum” aquilo que a nós e aos nossos familiares, amigos, etc. diz respeito. Não existe nada mais ilógico que pensar e agir assim. Todavia, levantam-se aqui outras questões essencialmente de âmbito ético-político, muito visíveis, por exemplo, nas teses de Michael Sandel (2009; 2012) Justice: what’s the right thing to do?; What money can’t buy – the moral limits of Markets, que nos remetem à ideia de “Comum” aquilo que pertence a todos sem exceção.

Por exemplo 1: Qual é a obrigação do agricultor sudanês face ao agricultor filipino? Por que razão o agricultor sudanês teria de se preocupar com quem está na Ásia? A resposta seria simples: o agricultor sudanês não se deve preocupar porque não vive no mesmo continente ou o agricultor sudanês nem sabe se existe um agricultor filipino. Nada mais “absurdo” e egocêntrico do que pensar assim. Certamente, a primeira resposta só tem sentido se, porventura, imperar a Razão egocêntrica. Pelo contrário, perderia o seu sentido se se pensasse numa “antropolítica”. Vejamos: Se as ferramentas usadas pelo agricultor sudanês para a produção dos seus bens fossem todas fabricadas nas Filipinas, justamente, na fábrica onde o agricultor filipino tem a função central? Claro, agora a primeira resposta perderia sentido. Por quê? Diríamos: porque é fundamental que o agricultor sudanês se preocupe com o fornecedor dos seus meios de produção. Ora, só nos devemos preocupar com aqueles dos quais temos benefícios diretos? Não, concluo.

Por exemplo 2: Quantas vezes se usa um smartphone sem saber a origem do seu material? Qual a obrigação de saber de onde provém o material do smartphone? Quando se compra um smartphone se está preocupado com a ostentação particular, estar na moda, ou contribuímos para o niilismo de uma “civilização”?

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A resposta, mais uma vez, seria simples: o que teria eu a ver com a população congolesa que extrai o coltan (a columbita e a tantalita) para o fabrico dos smartphones, e armas mais sofisticadas, etc., em circunstâncias desumanas, se até pago um valor elevadíssimo para aquisição dos mesmos e sou a favor dos direitos humanos? Seria a legitimação da Razão egocêntrica. Tendo na República Democrática do Congo a maior reserva mundial de coltan, 80%, se se vier a concluir que a extração do coltan representa o maior incentivo para a aceleração da degradação ecológica, resultando nas maiores catástrofes que a história da humanidade já registou, desde tufões e inundações aos abalos sísmicos e tsumanis, não teríamos uma particular atenção com a população congolesa? Sim, concluo.

Uma questão fundamental seria a que anteriormente colocámos: Se tivéssemos que comprar o ar que respiramos? Ora, com esta pergunta viria uma outra muito mais inquietante: O ar é um bem “Comum”? Diríamos que sim. E o é, de facto. Se o ar é um bem “Comum”, quem teria legitimidade para o poluir? As decisões tomadas para poluir o ar foram aceites pelos agricultores do Sudão do Sul e das Filipinas? Houve um memorando de entendimento para que poluíssem o ar?

As questões que levantámos têm toda razão de ser, desde o momento em que pensamos a política como ação e administração que transcende a espera territorial e reconhece o Metastatus como espaço público “Comum”, e que o capitalismo selvático dilacera os entes menos protegidos desta máquina de destruição maciça que “todos” estamos sujeitos. A legalização de uma política selvagem de mercado revestida de elementos antiéticos, passa à vista de todos sedimentando um “véu da ignorância” (ao estilo John Rawls) da qual os designados homens e mulheres do “marketing” procuram suavizar vendendo porta a porta um bem que pertence a todos.  Trata-se de um debate inesgotável, o próprio Frantz Fanon (2005) The wretched of the Earth mostrou-se preocupado com sistematização de um tipo de violência soft, mas brutal, por este motivo, apelava que a libertação total é a aquela que, de facto, abrange todos os setores da personalidade.

Não falta quem considere demasiado platónico os apelos que aqui debruçámos, mas é indispensável ter em consideração que nos dias que correm, fruto da “lógica do mercado selvagem”, há quem já compre o ar que respira. O Canadá tornou-se o maior vendedor de ar (fresh air) à China em resultado da crescente e desmesurada poluição que o país vive nos últimos anos. Ora, isso vem, de facto, realçar como a Razão egocêntrica se auto-destrói, objetivando manifestamente o “lucro”, rompe com todos os princípios que os direitos fundamentais consagram. Não deixa de ser paradoxal, pois as garrafas usadas no Canadá para o abastecimento do fresh air sejam produzidas na China.

Quem se beneficia com a venda do ar? Quem o polui? Quem sofre com essa poluição? E quem não puder comprar o ar?

Na história da humanidade nunca se presenciou um fenómeno desta natureza, portanto os decénios futuros apresentam-se com efeito aterrorizantes, e isso devido a violenta transformação da “Casa Comum” que a civilização da química, da industrialização físico-nuclear e da hiperurbanização cria. Perante uma situação tão inquietante, senão desesperada, resulta que, de cada vez que a nossa sobrevivência é ameaçada, é crucial abarcar a amplitude das forças com as quais somos confrontados, e dos recursos de que dispomos, ou que podemos impulsionar, a fim de lhes fazer face.

Embora se pense que atingimos o ápice do conhecimento e conseguimos “prever” o futuro, nada mais imaturo seria esquecer que civilizações como os Olmecas, os Rapa Nui, os Harappa, os Khmer e os Maias desapareceram inexplicavelmente, até aos dias de hoje. E nós???????

Um comentário sobre “Crítica à Razão egocêntrica. Contrapontos de uma política de humanidade.

  1. Félix Cipriano disse:

    Razão egocêntrica!
    Vivemos num mundo é em que endeusou-se o EU e diabolizou-se o OUTRO. Homo homus lupus, Tomas Hobbes. O que reflecte na convivência entre as pessoas, onde o NOSSO, só é nosso se por ventura, há um interesse próprio.
    A ideia de que o bem estar do outro, garante a minha segurança e integridade não faz parte do vocábulo do homem de hoje.
    É necessário humanizar a consciência humana do homem. Criamos a razão ultrocêntrico.

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