Brexit

Por Leonardo Dutra.

São curiosos os registros históricos que sugerem a nossa incapacidade de perceber a efemeridade do nosso tempo.

Repetidamente, a humanidade percebe que pode ter chegado ao seu ápice. Com frequência, as sociedades entendem que engenharam avanços tecnológicos sem paralelos na história, compreendem que desenvolveram arranjos políticos e sociais extraordinários, ou ainda, acreditam que experimentam um processo de globalização diferente de outros recortes temporais.

A sociedade internacional ficou espantada com a proximidade de tudo e todos em meados do ano 1900, ocasião onde “os telégrafos, os navios, as linhas férreas aproximavam todos os cantos.” O mundo ficou igualmente pasmo neste período, porque “as notícias diárias cruzavam o mundo via telégrafo e os jornais faziam com que muitos dos recém alfabetizados operassem uma revolução da informação,” como registrou Geoffrey Blainey em uma breve história do século XX.

Hoje o mundo se declara chocado pela decisão de aproximadamente 52% de cidadãos do Reino Unido que optaram por deixar a União Europeia, ou como registrado em muitos jornais, pessoas que optaram por abandonar o melhor projeto político da história da humanidade.

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Tais pensadores, jornalistas e veículos de comunicação se esquecem da fugacidade do nosso tempo. Esquecem-se que os arranjos políticos são temporários e o ordenamento internacional que construímos no presente é passageiro como toda a gente.

Segue que a cooperação e o atrito itinerante fazem parte do arranjo político na história. Um ordenamento onde cada fator historicamente ocupa o seu determinado lugar no tempo. Ordem que constrói um ambiente que por vezes é marcado pela esperança e pela cooperação, bem como, pelo pessimismo e pelo conflito. Arranjo político internacional que varia no tempo e no espaço sempre dentro de pontos intermediários entre o bom e o mau, o aceitável e o inaceitável, ou em última análise, entre um grupo de elementos não contraditórios ou totalmente excludentes.

Neste contexto, o Brexit é apenas mais uma página da ordem contemporânea. Uma ordem que inevitavelmente desintegrará a União Europeia, da mesma forma que sempre construiu, alterou e desconstruiu comunidades políticas no tempo.

É obvio que não podemos prever se a União Europeia, com suas características atuais, deixará de existir em 5 ou em 500 anos. No entanto, tudo sempre pereceu, e assim, seria ingênuo pensar que nosso tempo é diferente dos outros que existiram.

A composição do cenário internacional esteve sempre em algum ponto entre dois extremos. Particularmente, sempre esteve entre a completa independência entre as comunidades políticas ou um império absoluto. Em outras palavras, existimos em comunidades políticas que sempre estarão em algum lugar entre a completa autonomia ou onde a associação destas comunidades gerou outro extremo como um império.

Em última análise: temporariamente.

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