Labirintos em tempos de inglória

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Por. José Vilema.

A transformação estrutural da história impõe-nos uma reflexão sobre os acontecimentos hodiernos que, por um lado, está revestida de uma certa comodidade típica de épocas transitórias, mas, por outro lado, acarreta um elevado conjunto de ocorrências que dilaceram a esperança de qualquer civilização, pois, princípios, decretos e normas são diluídos numa velocidade fora do próprio ritmo histórico.

A esperança como força motriz do progresso civilizacional é constantemente posta à prova em virtude do paradoxo entre crer e não crer, ser e não ser, unificado e desagregado, etc., construir a incapacidade de estabelecer a unidade entre as nações postuladas pelas teorias do pós-Guerra Fria que fizeram com que as teses do historiador francês Fernand Braudel tivessem lugar uma vez que, na verdade, vivemos uma espécie de “ausência da história”, como o próprio Braudel confere no seu La Dynamique Du Capitalisme (1985), em razão de que o Homem moderno procura alimentar-se de uma “amnésia propositada” ao colocar de parte todas as experiências negativas, por um lado, e positivas, por outro.

Ora, porventura terá tido razão March Bloch, num incontornável texto, Apologie pour l’histoire ou Métier d’historien (1949; 1993; 2001), quando o mesmo se inquieta ao perguntar: é legitimo considerar o conhecimento do mais antigo como imprescindível ou desnecessário para a compreensão do mais recente? Diríamos que sim. Teríamos dificuldades em enfrentar os “delírios” do futuro se eventualmente nos despíssemos do passado. É verdade que Giambattista Vico na sua obra, Principi d’una nuova scienza intorno alla natura delle nazioni (1744) lembra-nos que a história não obedece uma progressão linear, mas em ciclos que se repetem, ou seja, implica em todo tempo avanços e retrocessos. Esse último argumento, decerto, levar-nos-ia a legitimação daquilo que até a data seria improvável, mas, porém, aconteceu: a construção de “muros” contra todos e quaisquer princípios positivados constitucionalmente.

A crise migratória com visível incidência no espaço europeu desvendou o prosopon (πρόσωπον) dos princípios humanitários, da livre circulação e do direito à vida. A construção de muros com o objetivo de vetar a entrada e trânsito de imigrantes representa a ignorância e a intolerância de uma época que procurou semear a fraternidade como um dos pilares da Revolução Francesa que agora é deitada por terra. Com efeito, esta iniciativa representa igualmente a negação do Outro como diferente, mas igual, quando na realidade a dimensão cosmopolita do mundo moderno é cada vez mais acentuada e que tudo isso simboliza o desejo e a violação de um princípio fundamental, o da não retroatividade civilizacional, em primeiro lugar, e do modelo Vestefaliano, em segundo, que foi uma das conquistas em termos internacionais, mas que agora perde a sua legitimidade jurídica.

A construção em curso do Muro em Calais não irá bloquear os imigrantes, mas sim estigmatiza-los, pois, na realidade, muros e cercas, barreiras, guetos encerrados e fortificações, tudo isso, acrescenta-se à contenção repugnante da humanidade inquietante. Estava certo Vico, presenciamos um corsi e ricorsi, porque retrocedeu-se à ideia antiga, desde a Grande Muralha da China à Muralha de Adriano definindo fronteiras no então Imperio Romano. Nunca funcionou. O Muro de Berlim caiu. A “cisão/barreira de segurança” de Israel contra os palestinos da Cisjordânia conheceu o seu crescimento na última década, todavia, ignorando a História, trata-se de um género de apartheid poroso, já que não impediu com que os palestinos pudessem usar os buracos na parede a fim de entrar em Israel. A isto associam-se as “fantasias trumpistas”, de Donald Trump, que objetivam a construção de um muro ao longo da fronteira mexicana.

Com isso, estamos vendo em 2016 uma Europa inversa, isto é, uma Europa de 1989. O discurso de vários líderes europeus ambiciona que seus países devem restabelecer o domínio nas fronteiras, mesmo dentro do espaço Schengen. Em resultado das indagações feitas desde os massacres de Paris, cerca de 70% dos inquiridos na Holanda disse que o país deve fechar suas fronteiras. A par da questão de quão longe isso realmente faz as pessoas mais seguras do terrorismo, fechando as fronteiras internas da Europa corre o risco de desmantelar a coisa que a maioria dos europeus valorizam mais sobre a União Europeia.

Qual será o destino deste novo labirinto? De que forma irão encarar os imigrantes a coibição de alcançarem a “terra prometida”?

2 comentários sobre “Labirintos em tempos de inglória

  1. Paulo Rodrigues disse:

    Partindo do princípio de que terra prometida é uma ideia da ausência de desespero; angústia; e sofrimento etc, etc se assim podemos analisar de tal forma nos tempos passados já tínhamos em conta na menção das literaturas.
    Não teremos terras prometidas em contextos emigratórios em quanto a cada vez mas presenciarmos as nações cada vez mas com egocentrismo de serem as más poderosas,as más dinâmicas as que mostram ser civilizadas sem esquecermos que por outro lado a maior burocracia nos processos imigratórios e até mesmo humanos. O ser humano a cada etapa que se aproxima-se vem mostrando-se uma vasta rotura no próprio seio habitável onde é cada vez notável a distruturaçao das famílias, dos povos, das sociedades, religião etc, etc.

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  2. José Sapepo disse:

    Joca li com muita atenção e percebi que estes labirintos são mutações idênticas às revoluções históricas que a humanidade teve ( Revoulção, Francesa ou politica, Segunda Revolução industrial) mas também, são consequências, como escreveu o filósofo Jean Baudrillard, em um dos seus últimos ensaios, de uma verdadeira revolução de incertezas. Com dizes no teu texto “A esperança como força motriz do progresso civilizacional é constantemente posta à prova em virtude do paradoxo entre crer e não crer, ser e não ser, unificado e desagregado”; e isso tem como consequência: princípios como Fraternité, liberte e egalité parecem tornarem-se conto de fadas. Tudo tornou-se líquido, usando a terminologia de Bauman, e nada é mais solido, até os valores, e para ultrapassarmos os delírios do passado, teríamos de ler o livro de Andrew Solomon, o Demónio do meio-dia. A negação do outro ressurgi com a valorização excessiva do Eu, tudo deve ocorrer em meu benefício. Como tu questiona, Qual será o destino deste novo labirinto? Enquanto o Eu for dominante, acho que o labirinto será sempre a negação do outro; De que forma irão encarar os imigrantes a coibição de alcançarem a “terra prometida”? os imigrantes irão encarar a coibição da terra prometida com o sentimento de exclusão e repulsa, é só ver o que se passa no mediterrâneo.

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