A PRIMAVERA ÁRABE NAS ELEIÇÕES BRASILEIRAS

Por Rodrigo Luiz Soares Evangelista [1].

A Primavera Árabe

Primavera Árabe[2] é o nome que foi batizada à onda de protestos, revoltas e revoluções populares contra governos do mundo árabe que eclodiu em 2011. A motivação dos protestos foi o agravamento da situação econômica que levou o povo ao sofrimento com elevadas taxas de desemprego e o alto custo dos alimentos. Outro motivo de insatisfação do povo Árabe foi a forma déspota do governo local, o que acarretava a falta de democracia.

A Primavera Árabe resultou a queda de quatro governantes na região. Os ditadores da Tunísia e do Egito deixaram o poder sem oferecer grande resistência, no entanto, na Líbia ocorreu a morte do ditador Muammar Kadafi, por meio de uma rebelião interna com ação militar decisiva da OTAN. No Iêmen, o presidente Saleh resistiu às manifestações por vários meses, até transferir o poder a um governo provisório. A Síria é atualmente o único país que permanece sob as ordens ditatoriais de Bashar al-Assad.

A globalização, desde sua implementação, vem transformando o mundo e a velocidade da informação a nível mundial. A pluralidade de meios e canais de comunicação fizeram o indivíduo emancipar-se da informação pré-formatada, colocando as teorias frankfurtianas dos filósofos e sociólogos Adorno e Horkheimer em dúvida, pois novas maneiras de se pensar e fazer política surgiram, principalmente, na forma de reivindicar, manifestar e compartilhar idéias. Devido a transnacionalidade da globalização e o rompimento da fronteira da informação, o Mundo Árabe não ficou de fora.

Os acontecimentos, no Oriente Médio e no Norte da África, que ocorreram a partir de 18 de dezembro de 2010 por meio da manifestação do jovem tunisiano, Mohamed Boauzizi, ao atear fogo em seu próprio corpo, mostrando-se desesperado pela falta de oportunidade para os jovens de seu país. (TETHERED, 2014). Devido a eclosão das manifestações e com o advento das mídias sociais, formou-se uma ágora virtual, onde a sociedade pode trocar informações e compartilhar suas indignações e desejos.

As mídias sociais, apesar do propósito agregador entre as pessoas, na Primavera Árabe o Twitter, o Facebook e os blogs tiveram seus propósitos totalmente voltados para a o inconformismo político e disseminação de idéias contrárias aos governos ditatoriais árabes.

As redes sociais

Na Primavera Árabe, os cidadãos foram grandes responsáveis pela divulgação dos acontecimentos por meio das mídias sociais. A disseminação da insatisfação popular permitiu a propagação dos levantes populares e potencializou as demandas da massa.

A globalização e os novos meios e canais de propagação da informação deu independência ao indivíduo, permitindo que novas idéias e insatisfações viessem a tona e permitissem que integrantes da sociedade fossem participantes ativos das nas mudanças sociais e políticas, sem qualquer tipo de dependência do Estado.

A nova conjuntura comunicacional que se instaurou naquela época fomentou ações coletivas que se organizaram em movimentos sociais em busca de mudanças estruturais na política local, particularmente após a percepção da sociedade do poder de transformação junto às tendências estatais.

O Brasil e as redes sociais

A Nielsen Company é uma empresa global de informação, dados e medição germânico-americana com sede em Nova Iorque, nos Estados Unidos. A empresa oferece uma variedade de informações em pesquisas de mercado, usando metodologias próprias.[3]

De acordo com a referenciada empresa, o Brasil liderou o número de visitas em redes sociais em abril do corrente ano, o estudo apontou que 86% dos usuários ativos de internet no País acessaram redes sociais. A Itália ocupou o segundo lugar no número de acessos (78%), seguida da Espanha (77%). Japão (75%), Estados Unidos (74%), Inglaterra (74%), França (73%), Austrália (72%), Alemanha (63%) e Suíça (59%) completam a lista. A citada liderança brasileira reflete em números de 139,1 milhões de pessoas com acesso à internet, cerca de 66% da população.

No Brasil, as redes sociais não se limitam mais ao relacionamento. Atualmente, não só com a finalidade a que se destina inicialmente, as referidas redes tornaram-se fonte de pesquisa e notícias, não só de consulta, mas também de produção de informação. A afirmativa acima, diferente de uma notícia impressa nos jornais, afiança a mutação da informação, seja ela relembrada para outro contexto, editada ou recriada.

A moderna situação das informações que hoje estão presentes nas redes sociais reafirmam a teoria de Harold Lasswell, a qual foi descrita ainda no século XX, a teoria hipodérmica[4], a qual a edição da realidade e a comunicaçào de massa se fazem presentes.

De acordo com o acima descrito, percebe-se que, no Brasil, a mídia social e a internet passam a ser um espaço de colaboração, baseada na interação e participação ativa de quem produz e recebe conteúdo. O meio digital, ao contrario do meio de comunicação impresso, é interativo, amplia as opções de leitura.

Devido a essa interação e liberdade que existe na rede, as pessoas estão cada vez mais utilizando essa ferramenta para se mobilizarem fisicamente ou somente pela internet. Isso vem causando certo transtorno para aqueles que tentam controlar a opinião pública já que esse é um espaço feito para todos publicarem o que pensam.

A Primavera Árabe nas eleições brasileiras de 2018

Desinformação nas redes sociais, acusações de ambos os lados, memes, denúncias sobre financiamento ilegal para desconstruir a imagem do o adversário, lives em redes sociais, discussões on line, deboche digital, dentre outras ações que ocorreram na reta final das eleições presidenciais de 2018, uma guerra digital.

Todas redes sociais foram inundadas de materiais favoráveis e desfavoráveis aos finalistas das eleições presidenciais 2018, Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Ocorre que dentro da guerra comunicacional o principal campo de batalha foi o Facebook e o aplicativo whatsapp, este com mais de 120 milhões de usuários em um país com quase 210 milhões de habitantes.

Sem focar em exemplos contundentes para não conotar predileção política a qualquer um dos candidatos e realizar uma análise isenta e justa, o presente artigo não citará passagens digitais que marcaram as eleições em epígrafe, atendo-se apenas a situar o leitor no movimento digital que tomou conta da população brasileira durante o período eleitoral do ano de 2018.

Mas se foi uma guerra digital, quem venceu a guerra? Qual motivo da guerra? E qual a comparação das eleições brasileiras com a Primavera Árabe? A política brasileira iniciou uma hegemonia ideológica no ano de 2003 com a eleição do então presidente Lula. Daquela época até a atualidade diversos escândalos ocorreram na gestão do Partido dos Trabalhadores (PT), ou seja, de 2003 a 2016, passando por dois mandatos presidenciais de Lula e dois mandatos presidenciais de Dilma, interrompido por um processo de impeachment em 31 de agosto de 2016.

Durante o período da hegemonia do PT diversos fatos e escândalos de corrupção e favorecimentos vieram a público, os quais não serão citados para não fugir do tema comunicacional e também porque estão na memória recente de toda população brasileira.

Ocorre que, por conta dos fatos e escândalos supramencionados, um sentimento emergiu no seio da sociedade brasileira, o mesmo despertado nos países árabes que tinham ditadores no poder por longos anos, o sentimento de impotência junto aos mandos e desmandos estatais.

Semelhante a primavera árabe, o Brasil vem carreando sua onda digital, no entanto com uma enorme duração e com 02 (dois) ápices, o movimento vem pra rua no ano de 2013 e em 2018 com o período eleitoral. Diferente dos países Árabes, que a máquina estatal queria controlar os meios digitais, no Brasil foi estabelecido uma polarização entre o governo vigente e a oposição, o que gerou ataque digital de ambos lados.

Mas o princípio de qualquer guerra, dizia Sun Tzu (1772, p. 60) que o conhecimento de seu inimigo era vital para o sucesso de qualquer batalha, nesse contexto pode-se contatar por meio da passagem abaixo descrita.

“Quem é verdadeiramente hábil na arte militar efetua todas as marchas sem desvantagem, todos os movimentos ordenados, todos os ataques certeiros, todas as defesas sem surpresa, todos os acampamentos com critério, todas as retiradas com sistema e método. Conhece as próprias forcas e as do inimigo. Conhece perfeitamente o terreno. Portanto, repito: conhece-te a ti mesmo, conhece teu inimigo. Tua vitória jamais correrá risco. Conhece o lugar, conhece o tempo. Então, tua vitória será total.”

Na guerra da informação brasileira que se estabeleceu na reta final das eleições, seguindo os preceitos de Sun Tzu acima descritos, quem conhecia a si mesmo e tinha informações de seu opositor era um grande candidato a ser vencedor da guerra comunicacional. Cabe ressaltar que o candidato do PT carregava consigo a reputação arranhada dos fatos e escândalos do então governo Lula e Dilma, bem como o opositor, Jair Bolsonaro, sofria mais ataques de desconstrução em cima de fatos isolados e editados que não fazem parte do cotidiano da população brasileira, tais como associação da imagem do então candidato e atual presidente eleito ao nazismo e a ditadura militar.

Considerações finais

Analogicamente os acontecimentos nos países do Oriente Médio que culminaram a primavera árabe e do movimento digital nas eleições brasileiras tinham motivos diferentes, haja vista que aqueles países tinham objetivo de depor do poder um ditador como governante e no Brasil a motivação foi de disputa eleitoral, no entanto o sentimento era semelhante, o de livramento do sentimento de impotência frente aos desmandos governamentais.

A utilização da internet e das redes sociais também se assemelham, haja vista o movimento digital que moveu massas em prol de seus interesses políticos, diferenciados apenas pelas motivações e pelos opositores.

Pode-se dizer por fim que o término das eleições brasileiras estabelecem um marco histórico que pode ser despercebido por uma grande parcela da população, mas que estará registrado na história como a semelhança da primavera árabe, não só na utilização das redes sociais e da internet, mas no sentimento comum da deposição de uma hegemonia política.

 

Notas

[1] Mestre em Segurança Pública pela Universidade Estadual de Roraima, Pós-graduado em Segurança Pública e Cidadania pela Universidade Federal de Roraima, Pós-Graduado em Comunicação Social pelo Centro de Estudos de Pessoal – RJ e Direito em Administração Pública pela Universidade Castelo Branco – RJ. Atua principalmente nos seguintes temas: Defesa, Segurança Pública, Operação de Informação, Comunicação Social e Marketing Multimeios. E-mail: rodrigoluizrjbr@gmail.com

[2]  A origem do nome Primavera Árabe é porque após o inverno, a primavera é a estação em que as flores renascem, assim a nomenclatura faz uma referência a mudança que esta revolução queria alcançar. Este nome também faz menção a Primavera de Praga, a qual também buscava mudar regimes políticos. (BIJOS; SILVA, 2013)

[3] Disponível em: https://www.nielsen.com/br/pt/insights.html?tag=Category%3ADigital&pageNum=1

[4] Historicamente, a teoria hipodérmica coincide com o período das duas guerras mundiais e com difusão em larga das comunicações de massa e representou a primeira reação que este último fenômeno provocou entre estudiosos de proveniência diversa. Os principais elementos que caracterizam o contexto da teoria hipodérmica são, por um lado, a novidade do próprio fenômeno das comunicações de massa e, por outro, a ligação desse fenômeno às trágicas experiências totalitárias daquele período histórico. Encerrada entre estes dois elementos, a teoria hipodérmica é uma abordagem global aos mass media, indiferente à diversidade existente entre os vários meios e que responde sobretudo à interrogação: que efeito têm os mass media numa sociedade de massa? A principal componente da teoria hipodérmica é, de fato, a presença explícita de uma teoria da sociedade de massa, enquanto, no aspecto comunicativo, opera complementarmente uma teoria psicológica da ação.

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